Vacina da gripe: por que ela precisa ser renovada todo ano?

Quando alguém se vacina contra o sarampo, a poliomielite ou o tétano, está protegido por muitos anos — ou para o resto da vida. Por que não acontece o mesmo com a vacina da gripe?

A resposta está no comportamento único do vírus influenza: ele muda. E muda rápido.

Gripe e resfriado: qual é a diferença?

Antes de entender a vacina, vale distinguir duas doenças que muitas pessoas confundem.

O resfriado afeta principalmente as vias aéreas superiores e provoca sintomas leves — nariz escorrendo, leve dor de garganta, às vezes uma tosse. A febre, quando aparece, é baixa. É causado por dezenas de vírus diferentes, sendo o rinovírus o mais comum. Para o resfriado, não existe vacina.

A gripe é outra doença, mais severa. O vírus influenza causa febre alta, prostração intensa, dores musculares fortes e mal-estar significativo. Pode evoluir para complicações sérias — como pneumonia — especialmente em idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças crônicas.

Por que a vacina da gripe precisa ser renovada todo ano?

O vírus influenza é dividido principalmente em dois tipos que afetam humanos: o Influenza A e o Influenza B. Esses vírus sofrem mutações com frequência — às vezes pequenas, às vezes grandes.

As pequenas mutações, chamadas de drift antigênico, ocorrem praticamente todo ano. Elas podem fazer com que a imunidade adquirida em um ano não proteja completamente na temporada seguinte — daí a necessidade de revacinação anual.

As grandes mudanças — o chamado shift antigênico — acontecem com intervalos de décadas, mas quando ocorrem podem originar pandemias. Foi o que aconteceu em 2009, quando o Influenza A H1N1 (a “gripe suína”) causou uma pandemia com centenas de milhares de mortes em todo o mundo.

Como a vacina da gripe é produzida?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) coordena uma rede global de laboratórios sentinelas espalhados por dezenas de países. Ao longo do ano, esses laboratórios coletam amostras dos vírus influenza em circulação e as enviam para análise.

Com base nessa vigilância, a OMS seleciona as cepas com maior probabilidade de circular na temporada seguinte. Essas cepas são então utilizadas para fabricar a vacina — geralmente cultivadas em ovos fertilizados, purificadas e inativadas. O processo completo, da escolha das cepas à chegada às clínicas, leva vários meses.

Se os vírus que circulam na temporada coincidirem com os escolhidos para a vacina, a proteção é alta. Se houver uma mutação inesperada no intervalo, a eficácia pode ser menor — mas vacinar-se continua valendo a pena: mesmo uma proteção parcial reduz significativamente o risco de complicações graves.

Quais são as cepas da vacina da gripe no Brasil em 2026?

Para a temporada 2026 no hemisfério sul, a Anvisa definiu a seguinte composição (Instrução Normativa 408/2025):

Vacina trivalente

  • A/Missouri/11/2025 (H1N1)pdm09
  • A/Singapore/GP20238/2024 (H3N2)
  • B/Austria/1359417/2021 (linhagem Victoria)

Vacina quadrivalente

Inclui as três cepas acima, mais:

  • B/Phuket/3073/2013 (linhagem Yamagata)

Vale destacar que a OMS já sinalizou a descontinuação das vacinas quadrivalentes a partir de 2027, pois a cepa B/Yamagata não é detectada em circulação natural desde 2020.

A vacina da gripe vale a pena mesmo assim?

Sim — e a resposta é direta. Mesmo nos anos em que a correspondência entre vacina e vírus circulantes não é perfeita, a imunização reduz de forma consistente o risco de internação e morte por complicações da gripe, especialmente nos grupos mais vulneráveis.

Independentemente das incertezas inerentes ao processo, vacinar-se todo ano é a melhor estratégia disponível contra a gripe.

Quem deve se vacinar contra a gripe?

O Ministério da Saúde recomenda prioritariamente:

  • Idosos acima de 60 anos
  • Crianças de 6 meses a 5 anos
  • Gestantes e puérperas
  • Trabalhadores da saúde
  • Pessoas com doenças crônicas (diabetes, doenças cardíacas, pulmonares, renais, entre outras)
  • Indígenas, professores, policiais e motoristas de transporte coletivo

Adultos fora dos grupos prioritários também podem e devem se vacinar na rede privada. A recomendação de vacinação anual vale para praticamente todos os adultos.